ENGENHEIRO OZIRES SILVA É DESTAQUE NA REVISTA DO CREA/RS

Leia a entrevista concedida pelo engenheiro aeronáutico Ozires Silva, ex-presidente da Embraer, Petrobras e Varig, à publicação Conselho em Revista, do CREA-RS (edição maio/junho). Ozires ministrará palestra magna sobre o desenvolvimento da indústria brasileira durante a abertura do Seminário Tecnologia, Inovação e Soberania, evento que acontece nesta quinta-feira (22) no Teatro do Prédio 40 da PUCRS, em celebração aos 75 anos de fundação do SENGE, em parceria com a Federação Nacional dos Engenheiros (FNE). As inscrições seguem abertas e são gratuitas.

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ENTREVISTA
Engenheiro Aeronáutico Ozires Silva, ex-presidente da Embraer, Petrobras e Varig

Por Jô Santucci / Conselho em Revista – CREA/RS  / Edição maio-junho

Seu nome é enaltecido por importantes entidades e esferas do poder público, por sua contribuição no desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira. Oficial da Aeronáutica e Engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Ozires Silva liderou em 1970 a equipe que promoveu a criação da Embraer, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo. Deu início à produção industrial de aviões no Brasil em uma época na qual as aeronaves em uso eram importadas. O primeiro passo para o sucesso foi dado com a fabricação do avião Bandeirante (Em B 110), primeiro aconseguir certificação nos Estados Unidos. Depois vieram outras aeronaves, que hojeoperam em mais de 90 países.

Presidiu a empresa até 1986, quando aceitou o desafio de ser presidente da Petrobras, onde atuou até 1989. Em 1990, assumiu o ministério da Infraestrutura e, em 1991, retornou à Embraer, desempenhando um papel importante na condução do processo de privatização da empresa, concluído em 1994.

Também atuou como presidente da Varig por três anos (2000-2003) e criou em 2003 a Pele Nova Biotecnologia, primeiro fruto da Academia Brasileira de Estudos Avançados, empresa focada em saúde humana cuja missão é a pesquisa, desenvolvimento e a produção de tecnologias inovadoras na área de regeneração e Engenharia tecidual.

Sempre defendendo a educação como base para a transformação, o Eng. Ozires, atualmente reitor da unimonte, de Santos (SP), ressalta que o desenvolvimento está justamente naqueles países que produzem alta tecnologia e investem maciçamente em educação. Veja a entrevista.

 

Conselho em Revista – Como a Engenharia está inserida no projeto que transformou em realidade a construção da indústria aeronáutica nacional?

Eng. Aeronáutico Ozires Silva – Desde o primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar, realizado por Santos Dumont, em Paris, no dia 23 de outubro de 1906, muitos pioneiros brasileiros — vários deles da maior competência — tentaram fabricar aviões em série que pudessem atender não somente o mercado brasileiro, mas entrar na agenda mundial. Infelizmente, não conseguiram. As razões foram muitas, mas possivelmente eles não conseguiram vencer a competição internacional (em particular dos Estados Unidos e da França) e mesmo serem capitalizados da forma essencial e suficiente para atender o mercado, tanto o nacional como o externo. A Força Aérea Brasileira ajudou a muitos com suas encomendas, mas obviamente as compras da FAB não eram contínuas e permanentes. O que realmente permitiu uma Embraer foi a fundação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), pelo então Ministério da Aeronáutica. O ITA formou no Brasil Engenheiros Aeronáuticos competentes, abrindo os caminhos para nossa atual produção de aviões, com marcas e propriedade intelectual nacionais voando por todo o mundo! Sem esse apoio da Engenharia, que produziu soluções para os complexos problemas da fabricação de aviões e vendê-los internacionalmente, nada teria sido conseguido!

Como o conhecimento técnico pode influenciar as decisões políticas na construção de políticas públicas?

Parece-nos claro que o conhecimento técnico produz planos e diagnósticos que, bem baseados na realidade, podem e devem influenciar as decisões públicas. Isso no Brasil tem sido difícil, pois mesmo os trabalhos da Engenharia encontram limitações e insuficiente liberdade para dar asas à criatividade e à inovação. Vemos que países com legislações mais flexíveis do que as nossas associam a liberdade de pensar e de decidir como atributos fundamentais para o sucesso dos programas. No Brasil, como sabemos, ainda estamos atrasados, pois a decisão política toma decisões finais, muitas vezes, longe e destituídas das lógicas técnicas. mesmo no caso da Embraer, se não fosse o decidido apoio político do Ministério da Aeronáutica, muito certamente não poderíamos comemorar os resultados de hoje.

Qual é o papel da Engenharia no atual cenário político e econômico brasileiro?

O mundo atual está demonstrando que a Engenharia tem sido, e continuará sendo, extremamente importante para criar e produzir tudo o que nos atinge no mercado. São artigos, os mais variados, fabricados em diferentes países, oferecidos em praticamente todas as vitrines de qualquer loja! Infelizmente, não vemos produtos brasileiros nas mesmas lojas em todo o mundo. Como sabemos, em grande medida – salvo algumas poucas exceções – os nossos representantes públicos não tomam decisões baseadas em critérios técnicos, que muitas vezes são bem mais valiosos do que as decisões políticas.O custo dessas ações (ou inações) está claro nos nossos índices de crescimento e desenvolvimento econômico, bem abaixo daqueles observados em países menores e menos importantes do que o Brasil.

O famoso jargão da década de 1950 “O Petróleo É Nosso!” ainda pode ser usado na atualidade?

O petróleo é hoje uma fonte de energia entre as mais importantes.Diria vital para a vida moderna e para as aspirações de qualquer cidadão de qualquer país. De acordo com dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP), nossas importações de petróleo e seus derivados pesam acentuadamente nas contas externas do Brasil, embora nós também exportemos o ouro negro para ajustar as diferentes qualidades às necessidades do nosso mercado interno consumidor. Quanto ao “Petróleo é nosso”, limitando à Petrobras a exploração em território nacional, é uma tese ainda polêmica e merece discussões, sobretudo quando olhamos para o futuro (hoje não muito distante) de uma dilapidação das reservas mundiais devido ao seu enorme consumo, atualmente estimado em 100 milhões de barris por dia! Esse debate não deveria tardar!

Em seu livro Etanol: a Revolução Verde e Amarela, o senhor apresenta o processo do etanol como um marco importante da realização brasileira e modelo invejado de criação de energia limpa e renovável em todo o mundo. Qual é a avaliação do senhor hoje com relação ao etanol no Brasil?

A produção do etanol e sua adaptação aos veículos constituem uma vitória da Engenharia brasileira. E sua distribuição em todos os Postos de Serviço do Brasil também é algo a se aplaudir, pois somos o único país que dispõe de um combustível renovável e desejável do ponto de vista do meio ambiente. Creio que o trabalho de usar o mesmo etanol sob outras formas, para veículos elétricos por exemplo, seria um bom exercício para se aplicar Engenharia e encontrarmos soluções novas, hoje já existentes no horizonte!

Quais são os principais problemas que impedem que o Brasil seja competitivo no mercado internacional e com tecnologias próprias?

Esta pergunta tem dado razões para um sem-número de eventos e discussões com as mais diferentes conclusões. Sabemos que os brasileiros são, de um modo geral, bastante criativos. Do mesmo modo, acompetência da Engenharia existe. Vemos mais e mais jovens cada vez mais entusiasmados em criar seus próprios negócios, muito diferentes dos do passado quando eles apenas procuravam empregos! Um grande problema, consagrado em muitos dos eventos, está centrado na dificuldade de gerar capitais de risco que auxiliem a enorme onda de tomadores de capitais que virá como consequência da formulação de soluções financeiras viáveis. Infelizmente, nossa cultura é a de investir pouco, mas ganhar muito em curtos espaços de tempo. Exatamente o contrário de cenários das pesquisas, os quais sempre nascem com uma série de dúvidas quanto a prazos de execução e de resultados. Assim, de um lado, temos capacidade técnica em boa escala, e, de outro, disponibilidade financeira em profunda escassez!

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