ESPECIALISTAS DEBATEM SOBRE O PAPEL DAS FUNDAÇÕES ESTADUAIS DE PESQUISA TECNOLÓGICA NO DESENVOLVIMENTO DO RS

Ocupando um papel de centralidade nos países desenvolvidos, o investimento em pesquisa e tecnologia precisa estar na pauta das políticas públicas de qualquer nação que queira crescer. Essa foi a mensagem deixada ao final do Painel 1 do Seminário Tecnologia, Inovação e Soberania, realizado nesse dia 22, na PUC-RS.

Com o tema “O Papel das Fundações Estaduais de Pesquisa Tecnológica para o Desenvolvimento”, o painel da manhã foi conduzido pelo geógrafo Iván G. Peyré Tartaruga, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), e teve como painelistas  os engenheiros Luiz Antonio Antoniazzi, pesquisador e ex-presidente da Cientec e membro do Conselho Técnico do SENGE, e Bernadete Radin, agrônoma pesquisadora da extinta Fepagro.

Para todos, o investimento em geração de tecnologia própria é o que diferencia uma nação autônoma e desenvolvida. “Enquanto não se cria tecnologia, compramos a tecnologia de outros. Isso é mesmo um atraso para o desenvolvimento de nações”, destacou Dr. Iván ao abrir o tema. No entanto, ele salienta, o papel das fundações no desenvolvimento só se torna efetivo quando há autonomia e quando se entende com clareza a as diferenças entre Estado e governo, para que se possa avançar em pesquisas sem que se altere seu rumo na interveniência de governos, que são transitórios. “O desenvolvimento tecnológico fica prejudicado quando não há autonomia”, destacou.

Segundo Iván, as medidas adotadas pelo atual governo gaúcho vão de encontro ao que indicam pesquisas e estudos de caso ao redor do mundo. Enquanto os principais especialistas alertam para um período de mudança tecnológica muito importante na área da tecnologia verde, em que diversos estudos indicam a área ambiental como essencial e como motor para a criação de tecnologias ecológicas e eficientes, o Rio Grande do Sul acompanha movimentos em torno da extinção de Fundação Zoobotânica, da Fepagro (já extinta), da Feps, que tem pesquisas na área de biotecnologia, além da própria CIENTEC, na área do desenvolvimento tecnológico.

“O planejamento das cidades também é essencial, pois a inovação não se dá de forma isolada. A Metroplan é outra ameaçada nesse sentido; No caso da FEE, abriremos mão de indicadores que ajudam no desenvolvimento e planejamento, não só econômico como social, assim como ocorre no caso da Fundação de Recursos Humanos”, listou, relembrando as fundações ameaçadas pelo atual governo Sartori.

Ao apresentar a Cientec, o engenheiro Antoniazzi clarificou sobre o tamanho da perda a que os gaúchos estão sendo submetidos . Fundada em 1942, a Cientec atua hoje prestando serviços diversos que garantem a qualidade e o desenvolvimento da indústria gaúcha. Dos seus departamentos de atuação – construção civil, eletroeletrônica, química, alimentos, metalomecânica e processos industriais – são geradas inovações e análises responsáveis pela melhora na qualidade de produtos e serviços.

Com 24 laboratórios, a Cientec integra o sistema Sibratec, atendendo a uma média de 900 clientes diferentes ao ano. “E investe 2 milhões ao ano em desenvolvimento tecnológico – sem recorrer a um centavo sequer ao governo do Estado, pois  atua com captação de recursos próprios”, enfatizou Antoniazzi. Entre as atividades realizadas pelos técnicos da Cientec, está a avaliação de qualidade de obras do governo, como rodovias, viadutos e barragens.

A Cientec se tornou uma pedra no sapato dos maus construtores. Grandes prejuízos em construções novas, que se deterioram em questão de dois meses, são evitados com esse trabalho” afirmou. Além dos prejuízos econômicos, o trabalho técnico é primordial para a segurança da sociedade. Antoniazzi lembrou de casos que a ausência de uma análise de qualidade redundou em capítulos trágicos na história brasileira – casos como o da barragem de Mariana, e o do Viaduto Guararapes, ambos em Minas Gerais. “A barragem de Dom Pedrito foi suspensa por não cumprir requisitos técnicos. Isso certamente evitou tragédias”, exemplificou sobre o trabalho que a Cientec desenvolveu nessa obra, e em outras, como a ponte sobre o Rio das Antas. “E não fez na ponte sobre o Rio Jacuí, em Agudo. Na reconstrução dessa ponte, o Tribunal de Contas solicitou e então a Cientec acompanhou a obra”, afirmou, em referência à ponte que, em 2010, desabou matando 5 pessoas.

Além disso, Antoniazzi destacou o trabalho de pesquisa e desenvolvimento de materiais realizado pela Cientec. Produtos como o Cipecal (tijolo prensado a frio, e que não necessita de argamassa para assentamento), e a tecnologia que utiliza cinza de carvão e araucária para asfaltamento de rodovias de alta resistência e durabilidade. “Nossos governantes vão ao Japão e se surpreendem ao descobrir que das cinzas do carvão se pode fazer cimento. Ora, nós desenvolvemos isso há 40 anos”, exclamou, citando obras como a termelétrica de Candiota, que utiliza a tecnologia criada pela Cientec.

“Dos laboratórios de química da Cientec saíram ensaios realizados em conjunto com força tarefa que deflagrou esquemas de adulteração de gasolina no Rio Grande do Sul; Na área de eletroeletrônica, presta serviços a indústria, faz homologações de equipamentos pelo Inmetro; Das incubadoras tecnológicas da Cientec já saíram dezenas de startups formadas por empreendedores que encontraram na Cientec toda a infraestrutura de que precisaram. Hoje, essas empresas em áreas de tecnologia e biotecnologia, desenvolvendo inclusive testes de vacina para o câncer”, explicou Antoniazzi.

“A Cientec está vivenciando junto com as outras fundações um momento muito difícil. Nesse momento, nossos representantes entendem que não há necessidade de gastar recursos em tecnologia, o govenador diz que o importante é gastar em presídios. É uma visão que vai contra tudo o que sabemos de desenvolvimento de países”, lamentou propondo à plateia os questionamentos: “Quem agora irá proteger a sociedade de tragédias que venham a acontecer? E quem vai pagar por investimentos que se constroem e em seguida são destruídos?”

Para a Agrônoma Bernadete Radin, a realidade é ainda pior. A Fepagro, criada em 1919, foi extinta em janeiro desse ano. Ao longo de 98 anos de atuação, a Fundação foi pioneira no mapeamento genético do trigo. Na área animal, foi pioneira no diagnóstico de doenças como febre aftosa. Trabalha com inoculantes de soja, o que diminuiu custos de adubação para a produção e preservando meio ambiente.

Ao desenvolver pesquisas de melhoramento genético de culturas, a Fepagro implantou Bancos de Germoplasma melhorando a produção de culturas diversas, com foco no consumo humano, como feijão e milho. Além disso, tem trabalhos importantes na área de sanidade animal, com várias linhas de atuação, em doenças parasitarias. “Em 2014, aprovamos um mestrado em saúde animal, mas agora não sabemos mais ao certo se terá continuidade ou não”, afirmou

“Todo o trabalho e todo o recurso investido na Fepagro nas últimas décadas forneceram subsídios para a produção gaúcha, que, nos últimos 35 anos, foi de mais de 400%. “Hoje produzimos mais de sete mil quilos por hectare. A pesquisa está envolvida nesse aumento de produção, não só na soja e no milho, mas em todas as culturas do Brasil. Com novas metodologias de cultivo e pesquisa em material genético a gente tem conseguido avançar e ter uma maior segurança alimentar. Essas pesquisas são feitas por diversas instituições, e são fundamentais para a diversificação de produção, desenvolvimento territorial e valorização da cultura local”, explicou.

Ao finalizar, a agrônoma também lamentou o momento difícil. “Não estamos felizes, mas, apesar da nossa extinção, seguimos trabalhando, porque a nossa pesquisa continua. Sabemos que teremos percalços ainda maiores pela frente, mas vamos correr atrás”, finalizou.

Confira o material das apresentações:

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Fonte: Site do Senge-RS, matéria “ESPECIALISTAS DEBATEM SOBRE O PAPEL DAS FUNDAÇÕES ESTADUAIS DE PESQUISA TECNOLÓGICA NO DESENVOLVIMENTO DO RS“, de 22/06/2017.

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