Sindicato dos engenheiros se volta a exemplos de estatais para falar em inovação e soberania

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Evento sobre ‘Tecnologia, Inovação e Soberania’, do Senge, foi realizado na PUCRS | Palestras da tarde. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Fernanda Canofre*

Um seminário falando de “Tecnologia, Invocação e Soberania” marcou a comemoração de 75 anos de criação do Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul (SENGE), durante toda a quinta-feira (22). A série de painéis e palestras colocou na mesa perguntas e desafios com os quais as várias áreas da engenharia vem se deparando nos últimos anos, juntamente com o papel do Estado em viabilizar avanços.

“A Engenharia brasileira, mais uma vez, sofre as consequências da falta de um planejamento de Estado de médio e longo prazo. Mesmo assim, acompanharemos no dia de hoje exemplos marcantes do que pode ser feito neste país a partir da prevalência da tecnologia e da inovação em prol da soberania nacional, hoje ameaçada”, afirmou o diretor do SENGE, Alexandre Wollmann logo no início do evento.

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Diretor do Senge, Alexandre Wollmann | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Ele também lembrou da “política de esfacelamento da ciência e da tecnologia” que vem sendo conduzida por parte do Estado, especialmente no Rio Grande do Sul, onde o governo de José Ivo Sartori (PMDB) toca a extinção de duas fundações tradicionais de pesquisa como a Cientec e a Fepagro. “Cabe à Engenharia, através das suas entidades representativas, externar sua excelência e o seu compromisso para com o desenvolvimento, e não deixar sem o devido contraponto a manipulação da opinião pública”.

Dirigente da Federação Nacional dos Engenheiros, Murilo Pinheiro, também citou a crise e como a tecnologia parece a única saída. “A Engenharia está presente em tudo, mas às vezes não participa das discussões e decisões. Nem sempre os engenheiros são ouvidos. Nós precisamos nos unir e buscar o protagonismo. Em qualquer questão que envolva a área técnica, os profissionais precisam ser ouvidos. No momento da maior crise brasileira, a saída é pela inteligência e pela tecnologia”, defendeu.

Já o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do RS (CREA), Melvis Barrios Jr., questionou como o país espera se industrializar sem garantir infraestrutura e preservação da pesquisa feita aqui. “O Rio Grande do Sul aplica 0.9 do PIB em infraestrutura, enquanto estudos internacionais demonstram ser necessário investir 1.5. Esse cenário dificulta a atração de investimentos. Em Rio Grande, temos a terceira maior estrutura do mundo para criar plataformas, e o investimento foi abandonado quando podíamos estar gerando mais de 30 mil empregos na região”, afirmou ele Melvis em crítica ao que chamou de “política de desnacionalização”.

Para discutir como Estado e sociedade podem superar juntos o cenário de crise com tecnologia e inovação, a programação do seminário do SENGE se voltou especialmente aos casos de estatais e à educação. O sindicato trouxe falas de Ozires Silva, um dos criadores da Embraer; Ricardo Maranhão abordando as políticas de petróleo, a Petrobras e a soberania nacional; servidores da Cientec, Fepagro e FEE falando sobre as extinções de fundações e o que o Estado perde e professores de universidades gaúchas que vivem a experiência de pólos de tecnologia.

As fundações e o desenvolvimento do RS

No início da tarde, o Senge também realizou entrega das medalhas de mérito do sindicato | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O painel sobre as fundações colocou uma pauta que foi pontuada em vários momentos durante o encontro: o problema de o Brasil exportar matéria-prima e importar produtos já industrializados. Ou seja, o país perde a chance de ganhar em valor agregado e ainda paga mais caro para comprar os produtos no mercado externo. Esse “déficit” de tecnologia e sem uma política para criação da mesma afetariam diretamente a autonomia do país.

“Enquanto não se cria tecnologia, compramos a tecnologia de outros. Isso é mesmo um atraso para o desenvolvimento de nações”, destacou Dr. Iván Tartaruga, geógrafo da Fundação Estadual de Economia e Estatística (FEE).

No tópico de nações desenvolvidas, o ex-presidente da Cientec e engenheiro, Luiz Antonio Antoniazzi, lembrou em sua fala da visita recente feita por Sartori ao Japão para tratar de tecnologias relativas ao carvão. “Nossos governantes vão ao Japão e se surpreendem ao descobrir que das cinzas do carvão se pode fazer cimento. Ora, nós desenvolvemos isso há 40 anos”, citou ele, lembrando do trabalho realizado na termelétrica de Candiota.

“Dos laboratórios de química da Cientec saíram ensaios realizados em conjunto com força tarefa que deflagrou esquemas de adulteração de gasolina no Rio Grande do Sul”, disse ainda Antoniazzi destacando a importância que a fundação tem para o Estado, também na fiscalização. “Das incubadoras tecnológicas da Cientec já saíram dezenas de startups formadas por empreendedores que encontraram na Cientec toda a infraestrutura de que precisaram. Hoje, essas empresas em áreas de tecnologia e biotecnologia, estão desenvolvendo, inclusive, testes de vacina para o câncer”.

Servidora da Fepagro, a engenheira agrônoma, Bernadete Radin, defendeu a pesquisa na fundação – agora incorporada à Secretaria de Agricultura, perdendo sua autonomia – que produz uma média de 7 mil quilos por hectare. Foi a Fepagro que viabilizou, nas últimas décadas, a série de manchetes sobre “safras recorde” no Estado. Em 35 anos, a produção gaúcha teve um aumento de 400%.

“A pesquisa está envolvida nesse aumento de produção, não só na soja e no milho, mas em todas as culturas do Brasil. Com novas metodologias de cultivo e pesquisa em material genético a gente tem conseguido avançar e ter uma maior segurança alimentar. Essas pesquisas são feitas por diversas instituições, e são fundamentais para a diversificação de produção, desenvolvimento territorial e valorização da cultura local”, explicou a agrônoma.

As universidades e pólos tecnológicos

Quatro professores universitários do RS discutiram papel das academias em recuperação jovens | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O segundo painel do dia, que fechou o seminário, tratou de “Ensino e Inovação em Engenharia: o papel das universidades e seus pólos tecnológicos”, conversando com professores da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Unilasalle, PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e Univates (Centro Universitário, em Lajeado).

Os painelistas falaram sobre as experiências das instituições com a construção de seus pólos tecnológicos, em parcerias com indústria e produção local. O professor Eduardo Giugliani, membro da Associação dos Parques Tecnológicos (Anprotec), engenheiro civil e professor, que coordena projetos no Tecnopuc lembrou da história de criação do Parque Tecnológico, em 2003. Segundo ele, desde que ele foi instalado, as operações da PUCRS tiveram um crescimento de 545%, os empregos de 1.350% e a área construída foi ampliada em 379%.

O professor da PUC diz que, no início, o projeto não tinha muitas ambições além da pesquisa. “Hoje ele é absolutamente impactante na cultura da universidade. A partir de 2006, começam a aparecer, pressionados por esse novo organismo dentro da instituição, inúmeras iniciativas de caráter mais transversal, mais orgânico. Já passaram por aqui, mais de 15 mil alunos, pessoas das mais diversas formações. Houve um aumento na sinergia entre a universidade tradicional, robusta e um ambiente novo”.

Antes dele, o professor Mauricio Mancio, da Unilasalle, fez um recorrido histórico sobre como o aumento da população vem impactando o planeta e pressionando que se “inove”. Mancio afirma, no entanto, que qualquer inovação, no futuro, tem de partir de esforço conjunto, planejamento, projetos, uso de materiais corretos e de recursos humanos, para garantir que será sustentável – única maneira de equilibrar a sobrecarga que significamos nesse momento para o planeta. E tudo volta a ser também uma questão de tecnologia e de pesquisas que ajudem a chegar até elas.

“Isso é uma área multidisciplinar. Precisa de tecnologia, precisa de transferência de tecnologia. Inovação não acontece só dentro da instituição de ensino, só dentro da universidade. Ela acontece no mercado, nessa ponte entre academia e mercado. Como a gente vai chegar lá? Eu gosto muito desse conceito de ‘desenvolvimento de competências’, quando a gente consegue trabalhar com conhecimento, habilidade e atitude”, afirma Mancio.

Engenheiro e professor da Unilasalle, Mauricio Mancio | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Professor representando a Tecnovates – o parque tecnológico da Univates – o professor Renato de Oliveira fez uma crítica ao modelo de cultura empresarial adotado pelo Brasil. Para ele, no país há a ideia de que empresa boa é aquela que consegue grandes rendimentos com quase nenhum investimento. E universidades têm entrado cada vez mais nesse rol. Oliveira citou o caso de uma universidade privada que teria mais de 1,7 milhões de alunos, mas que segue com os olhos na Bolsa de Valores.

“Nós temos que formar uma nova mentalidade empresarial a partir das universidades. Desse ponto de vista é que os parques tecnológicos e as incubadoras tecnológicas são absolutamente estratégicas, se nós quisermos pensar num público qualitativamente diferente”.

*Com informações do site do SENGE-RS


Fonte: Sul21, publicado em 23/07/2017

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